Carta anual dos fundadores da Cloudflare, 2026
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Esta semana, a Cloudflare celebra seu 16º aniversário e, como muitos jovens de 16 anos atualmente, olhamos para o mundo em que crescemos com a sensação de estarmos entre o passado e o futuro. E assim como eles, às vezes enxergamos riscos diante de tantas mudanças. Mas, no geral, somos bastante otimistas quanto ao que está por vir. O que alimenta esse otimismo, assim como nossos receios, é a consciência de que a mudança sempre traz consigo rupturas.
A internet está mudando hoje mais do que em qualquer outro momento desde o lançamento da Cloudflare em 27 de setembro de 2010. Algumas destas mudanças parecem indiscutivelmente positivas, enquanto outras transformam drasticamente a forma com que entendemos a internet.
Uma das mudanças mais significativas diz respeito à velocidade de crescimento da web em si. De 2012 a 2025, a web estagnou e, por algumas métricas, até encolheu. Isso mudou em meados de 2025, com uma explosão de novos sites. A narrativa popular atribui esse crescimento ao conteúdo de baixa qualidade gerado por IA (AI slop) mas, embora exista um fundo de verdade nisso, não é apenas isso que observamos.
A IA deu origem a uma nova geração de criadores. Agora, pessoas com ideias, mas sem habilidade em programação conseguem dar vida a novas criações com o auxílio das chamadas ferramentas de "vibe coding". Nos orgulhamos do fato de que a maioria dessas ferramentas utiliza a plataforma para desenvolvedores da Cloudflare como destino de implementação. Afinal, o melhor aspecto da tecnologia é permitir que mais pessoas possam expressar sua criatividade. Temos o privilégio de estar na primeira fila vendo estudantes do mundo inteiro criando aplicativos para resolver problemas reais, e startups com novas ideias de negócio sendo construídas em tempo recorde. Hoje, mais de sete milhões de desenvolvedores estão construindo o futuro na plataforma para desenvolvedores da Cloudflare.

O último ano também mudou em termos de quem (e também o quê) usa a internet. Nossas projeções iniciais eram de que o tráfego automatizado ultrapassaria o tráfego humano no segundo semestre de 2027. A ascensão dos agentes e dos crawlers de IA antecipou essa data para maio de 2026. Se as tendências atuais continuarem assim, o que pode inclusive ser uma estimativa conservadora, o tráfego automatizado será mil vezes maior que o tráfego humano em apenas cinco anos. Não porque acreditemos que o tráfego humano vai diminuir, mas porque o tráfego gerado por agentes está explodindo.
Para quem os usa, esses agentes de IA já são impressionantes. Peça a um que encontre uma passagem aérea, um prestador de serviços ou um plano de celular mais barato, e ele lerá mais páginas em um minuto do que você conseguiria em uma tarde, para então voltar com uma resposta. Ele faz o trabalho por você.
Mas esse trabalho não é gratuito. Se você pedir ao seu agente de IA que sugira um lugar para almoçar, ele pode analisar mil cardápios de restaurantes da região para sugerir apenas um. Aquele restaurante pode conquistar sua preferência, mas os outros 999 tiveram que arcar com o custo de atender ao agente sem receber nada em troca. O risco aqui é o de uma tragédia dos comuns: os usuários que se beneficiam dos agentes de IA e de seu tráfego não assumem os custos da carga que impõem ao sistema e, por isso, não exercem a moderação adequada.

A IA tornou mais fácil do que nunca para estudantes e startups criarem algo. Os agentes de IA podem tornar muito mais difícil para qualquer pessoa encontrar essas criações. Hoje, pequenas empresas conquistam clientes com emoção ou conveniência. Você frequenta certo mercadinho porque a pessoa no balcão lembra seu nome ou porque isso faz parte de como você se define. Ou compra em uma loja local mesmo sabendo que ela não tem a melhor seleção ou os melhores preços, mas ela fica no caminho de volta para casa.
Seu agente de IA não se importa com quem lembra seu nome, e ele não passa em frente à loja local. Ele escolhe o que tem mais informações disponíveis, e isso geralmente é quem está no mercado há mais tempo. O risco, então, é que, à medida que os agentes gerenciam cada vez mais transações comerciais, eles dificultem ainda mais a entrada de novos entrantes. Isso, por sua vez, deve levar à consolidação e a um ambiente de negócios menos dinâmico.
Um dia, também fomos novos entrantes. Dezesseis anos atrás nesta semana, lançamos a Cloudflare no palco do TechCrunch Disrupt enquanto nossos engenheiros, na plateia, corrigiam falhas no sistema. Ainda havia oito para resolver quando subimos ao palco. Quando saímos, estavam corrigidas, e estávamos operando em cinco data centers em três continentes. Nenhum agente teria nos recomendado. Mesmo assim, as pessoas apostaram em nós. Queremos que os próximos novos entrantes tenham a mesma chance.
É por isso que lutamos. Não queremos um futuro com apenas cinco empresas de IA, mas um com quinhentas mil, espalhadas pelo mundo. Não queremos um cenário em que criadores de conteúdo definham e desaparecem porque não conseguem ser remunerados, mas um em que qualquer pessoa pode criar, alcançar um público global e ser paga pelo seu trabalho. E não queremos um mundo em que poucas megacorporações vencem por padrão, mas sim um em que novos entrantes com produtos melhores possam atender bem seus clientes, e vencer.
No ano passado, escrevemos sobre o que a IA estava fazendo com criadores de conteúdo. Este ano, a mesma transformação está chegando ao restaurante e ao mercadinho. O que vai substituir o antigo modelo de negócios da internet é a pergunta mais interessante dos próximos cinco anos e, esta semana, tentamos novamente respondê-la.
Como em todo aniversário, celebramos dando presentes em vez de recebê-los, e alguns desses presentes são para os 999 restaurantes. Os agentes percorrem a web da mesma forma que os mecanismos de busca sempre fizeram: tudo, repetidamente, independentemente de ter havido mudanças ou não. Nossos dados indicam que mais da metade do que os bots legítimos buscam não mudou desde a última visita. Temos trabalhado para que os crawlers vejam mais da web buscando apenas o que é novo, o que reduz a carga sobre os sites que percorrem. E estamos dando a qualquer pessoa que publique conteúdo ou aplicativos on-line uma forma de ser remunerada quando agentes usam o que ela criou.

A missão da Cloudflare não é construir uma internet melhor, mas ajudar a construir uma internet melhor, o que significa que não podemos fazê-lo sozinhos. Por isso, esta semana também anunciaremos parcerias com empresas e organizações que desejam o mesmo futuro que nós.
Como outros jovens de 16 anos nesta nova era da IA, temos a oportunidade de colocar nossas ideias em prática. Estamos fazendo isso para que a Internet ainda tenha espaço para um adolescente lançando seu primeiro aplicativo, para o mercadinho onde lembram do seu nome e para quem está construindo a próxima Cloudflare.
E nunca estivemos tão entusiasmados com isso.


